Podem rasgar meu corpo à chicotada
Podem calar meu grito enrouquecido
Para viver de alma ajoelhada
Vale bem mais morrer de rosto erguido
Este verso do Hino de Caxias, criação coletiva de um grupo de presos políticos antifascistas, caracteriza uma categoria de seres humanos, de portugueses e de montemorenses a quem devemos, a quem a sociedade humana deve as maiores conquistas civilizacionais, em particular quanto à justiça social e à liberdade. O João Machado, o nosso Machadinho é um desses expoentes!
Permiti-me invocar a beleza e a serena firmeza daquele poema de resistência e confiança no futuro porque, em conjunto com outros jovens (alguns dos quais aqui vejo), aprendemos com o Machadinho, naqueles inesquecíveis e históricos dias de Abril, esta e várias outras canções de luta e de esclarecida inteligência.
Outra razão há. O João Machado esteve preso em Caxias e noutras prisões fascistas cerca de 10 anos. Não foi preso por usar ou desviar dinheiros públicos ou outros que, aliás, nunca teve. Não foi preso por burlar ou explorar alguém. Foi preso por levantar a voz contra a guerra, por participar em ações contra a ditadura fascista, contra a fome e a miséria, contra o desemprego. Foi preso por lutar pela democracia e pela liberdade que acreditava, e bem, que só o seriam de facto se acompanhadas por melhores condições de vida e por justiça social.
A prisão e a tortura não o vergaram, não o podiam vergar. O Machadinho, o operário agrícola montemorense, continuou a espalhar sementes de cravos vermelhos. Floresceram em 25 de Abril de 1974.
Após a Revolução libertadora de Abril, encontramo-lo nas fileiras da construção da democracia, da defesa da Reforma Agrária que pôs o nosso concelho a produzir, que criou mais de 3.000 postos de trabalho e uma dinâmica de desenvolvimento ao serviço do Povo nunca vista nem esperada. O Machadinho está na construção do Poder Local Democrático, onde foi eleito. O Machadinho está nas pequenas e grandes lutas, está na resistência à política de direita que devolve o poder económico e enriquece, à custa do Povo, uma pequena elite.
O Machadinho, comunista de fortes convicções, sabe ouvir e falar com toda a gente. Conquista merecidamente um imenso respeito do Povo de Montemor. É consensual a imagem de um “homem bom”, de comunista respeitado, de lutador por causas justas!
Este homem, e comunista, faz parte de uma geração de lutadores movidos pelas grandes causas humanistas e absolutamente indiferentes e intocados pelos favores ou pelas benesses materiais. Uma lição de vida!
A 25 de Abril de 2000, a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo decidiu atribuir ao João Machado a Medalha de Honra “Liberdade, Progresso e Justiça Social”. Uma insígnia que, mais que o próprio, honra o Município.
Quando tive o prazer de lhe comunicar a intenção da Câmara, o Machadinho respondeu-me que não lhe parecia justo porque muitos outros também tinham lutado como ele. Consegui convencê-lo, comprometendo-me a referir publicamente que a Medalha era também um reconhecimento coletivo da luta desenvolvida por muitos no nosso concelho. Assim fiz. Assim faço agora porque sei que essa era a sua vontade.
Em nome do Município e do Povo de Montemor, João, a nossa dívida, o nosso reconhecimento! O teu exemplo fica e outras sementes das que nos legaste, germinarão um dia! Porque, como não te cansavas de lembrar, a luta continua!
23/3/2012
O Presidente da CM Montemor-o-Novo,
Carlos Pinto de Sá
Biografia